Fahrenheit 9/11
14 de julho de 2004
Vi ontem o filme de Michael Moore, em pré-estreia no meu vilarejo de Pertuis, com legendas. A sala estava cheia. Havia muitos americanos, de férias na região. O filme é bem feito, impactante, sem pesadez. O que transparece é a total inutilidade do personagem Bush (e de seu entorno). Há uma sequência impressionante. Quando os aviões atacam as torres gêmeas, Bush está numa escola com crianças pequenas. Duas vezes seus assessores o avisam; a segunda mensagem é: "Senhor Presidente, a Nação está atacada". Bush permanece sem reação por vários minutos, sete ou oito, acho eu. É filmado em close. Após essa segunda mensagem, ele parece não saber o que fazer, morde os lábios e volta a pegar o livro de classe que estava lendo alguns minutos antes. Parece então uma criança chateada, contrariada. Ele se assemelha especialmente a um ator ao qual não foi fornecido nenhum texto e que espera que alguém o compor para ele.
Aparentemente, todos os discursos de Bush são redigidos para ele. É antes de tudo um ator que sabe posicionar o olhar, cuidar das expressões, dos silêncios, mas também uma marionete. Quando improvisa, é simplesmente catastrófico. Não são apenas erros, são confissões. Quando fala diante das famílias mais ricas dos EUA, diz: "vocês são a minha base".
Moore destacou um pequeno número de temas com muito talento. Não julgou necessário mostrar novamente os impactos nas torres gêmeas ou imagens de pessoas se suicidando ao se jogar pelas janelas, em vez de morrer queimadas vivas. Apenas os rostos das pessoas, comoventes. Vê-se uma jovem mulher mostrando a foto do marido, pai de dois filhos: "Alguém teria visto meu marido?". A monstruosidade do evento aparece nesses poucos planos, todo o conjunto tratado com muita sobriedade, pudor.
Em paralelo, menciona-se a reunião do grupo Carlyle, na véspera do evento, e o jantar de Bush com o embaixador da Arábia Saudita. Aprendemos que o dinheiro saudita representa de 6 a 7% dos investimentos nos EUA e que a retirada desses recursos colocaria a economia americana em dificuldades.
Moore não argumenta, mas deixa as imagens, as pessoas e os fatos falarem. Vê-se sargentos recrutadores dos fuzileiros navais em ação em bairros pobres: "O exército, meu rapaz, te permitirá viajar, pagará seus estudos". Tudo passa. Esses dois homens, com chapéus brancos, presos em seus uniformes, caçam recrutas como dois homens em perseguição a uma presa. Outra sequência, em contraponto, Moore assume o papel do sargento recrutador e, ao sair de uma sessão, aborda um dos 325 membros do Congresso para perguntar se seria viável que um dos seus filhos se engajasse no conflito no Iraque. Todos se esquivam, constrangidos. Aprendemos que, entre esses 325 membros do Congresso, apenas um tem um filho envolvido nesse conflito.
Sequência sobre os bairros desfavorecidos.
- Para poder nos permitir a universidade, o exército é a única solução. É triste, mas é assim, diz um jovem de pele café com leite.
É aí que atuam nossos sargentos recrutadores, explorando todos os registros.
- Você gosta de jazz. Mas sabe que no exército temos grupos muito legais...
A sequência mais forte, Moore consegue ao acompanhar o destino de uma mulher que pertence a esses bairros. No início do filme, ela anuncia que em sua família há muitos militares e que está extremamente orgulhosa disso. Seu filho, seus sobrinhos, irmãos, pais são militares. Sua filha também, que estivera presente no primeiro conflito, na guerra do Kuwait. Mas "graças a Deus, ela ficou sã e salva".
Vê-se essa mulher pendurar, como todos os dias, sua bandeira com estrelas na janela de sua casa. Acrescenta: "nós somos a espinha dorsal da América".
E então tudo desaba. Seu filho de vinte anos é morto quando combatentes iraquianos derrubam um helicóptero sobre Bagdá. Seu mundo, de repente, desaba. É provavelmente o primeiro morto nessa família que conta uma dúzia de militares, e o morto é justamente seu filho, que lhe enviara uma última carta, que ela lê, na qual o jovem confessa seu desespero: "não entendemos o que estamos fazendo lá. Tenho saudade de voltar para casa". Essa mãe irá a Washington, onde se pode ver a Casa Branca cercada por um muro bastante alto para impedir que um atirador possa simplesmente se posicionar atrás de grades. A certa distância, uma velha mulher acampa numa praça deserta sob um abrigo improvisado, uma simples lona de plástico que a protege da chuva. Também perdeu um filho e se cercou de painéis de cartolina. Uma jovem mulher se dirige a ela, como a quem Moore seguiu em sua peregrinação. A última diz: "perdi um filho... é verdade... você entende? Ele morreu lá". E a outra, sem saber o que responder, acaba soltando com raiva ao se afastar: "ele não é o único!".
O filme de Moore está repleto de cenas fantásticas, como essa. A escrita é sobria e evoca a de um Chris Marker. Entendo por que foi concedido o prêmio de ouro a este filme, apenas do ponto de vista cinematográfico. O que é louco são os contrastes. No crédito, bastante longo, vê-se Bush, Dick Cheney, Rumsfeld, Condoleezza Rice, maquiados. Em um momento, vê-se uma pessoa molhar seu pente com a saliva várias vezes para se pentear melhor. Quem é esse homem, de uma vulgaridade desarmante? Não é outro senão Paul Wolfowitz, segundo no Pentágono, estrategista-chefe das guerras no Afeganistão e no Iraque. O espectador pensa: "será que são realmente essas pessoas que dominam o mundo?".
Vistas no Iraque: primeiramente jovens recrutas, logo após entrarem na cidade, dizem: "antes do combate, colocamos uma música adequada nos ouvidos, com o som bem alto, e atiramos em tudo que se mexe". Chama atenção a jovem idade desses recrutas. Encontramos outra mãe, agora iraquiana, que perdeu os seus após um bombardeio. Mesma dor, mas um Deus diferente. A americana dizia: "Meu Deus, por que levou meu filho?". A outra grita: "mas Allah, o que você está fazendo?".
Planos fechados em Rumsfeld tranquilizando os americanos: "nossos ataques são precisos, preservam o máximo de vidas civis". Declarações categóricas sobre a detenção de armas de destruição em massa.
- Os iraquianos trabalham para adquirir a arma nuclear. Temos provas de que detêm armas de destruição em massa, com as quais são capazes de atacar o território americano.
Declarações em contradição com as de uma Condoleezza Rice, algum tempo antes, dizendo: "O potencial industrial iraquiano foi enfraquecido pela guerra do Kuwait ao ponto de esse país ser incapaz de representar uma ameaça para nós".
A impressão geral é que essas pessoas dizem qualquer coisa, mentem. Tudo isso parece um mau sonho, uma má peça de teatro. No filme menciona-se essa reunião na Carlyle, o império que se enriquecerá consideravelmente com as vendas de armas, à qual participou o meio-irmão de Osama Bin Laden na véspera do 11 de setembro. No dia 12, uma armada de aviões (e não um só!) embarca...