Rudolf Steiner e a vaca louca

biographie

Na sua edição número 60, de fevereiro de 2001, a revista
Sciences Frontières ( http://www.sciencefrontieres.com)
8 bis rue du Chemin de Fer, 94110 Arcueil

publicou um texto absolutamente surpreendente,
que é um extrato de Santé et Maladie, de Rudolf Steiner, conferência
de 13 de janeiro de 1923 - Editions anthroposophiques
Romandes.

.. Bem, senhores, pode-se cozinhar um repolho tanto tempo quanto se quiser,...Bem, senhores, pode-se cozinhar um repolho tanto tempo quanto se quiser, não se tirará carne dele. Não se conseguirá tirar carne dele colocando-o na frigideira ou na panela, assim como não é possível transformar em carne um bolo que se prepara. Não há técnica que permita isso. Mas, afinal, o que não se pode fazer tecnicamente se faz no corpo do animal. Mas as forças necessárias a essa operação devem primeiro encontrar-se no corpo do animal. Entre todas as forças técnicas de que dispomos, não há nenhuma que nos permita transformar vegetais em carne. Não as temos. Nosso corpo, assim como o corpo do animal, contém portanto forças capazes de transformar substâncias vegetais, matérias vegetais, em matérias cárneas... .. Imagine que venha ao boi a vontade de dizer: .. " Já me cansei de passear e de apenas arrancar estas ervas. Um animal poderia fazer isso por mim. Vou já comer este animal! ". Vejamos: o boi começaria a comer carne! Ele é, no entanto, capaz de produzir ele mesmo carne! Dispõe de forças que o permitem. O que aconteceria então se, em vez de vegetais, o boi começasse a comer carne? Todas as forças que poderiam produzir carne nele ficariam então desocupadas. .. Pegue qualquer fábrica destinada a produzir uma coisa qualquer, e suponha que você não produza nada mas que ponha toda a fábrica em funcionamento. Imagine um pouco o desperdício de força que poderia haver. Uma força considerável seria portanto desperdiçada. Ora, senhores, a força que é desperdiçada no corpo do animal não pode dissipar-se assim. O boi transborda dessa força, ela faz nele outra coisa que não transformar matérias vegetais. Essa força permanece, ela está bem ali, age de outro modo nele. E o que ela faz produz toda espécie de resíduos. Em vez de carne, são substâncias nocivas que são fabricadas. O boi se encheria portanto de todas as matérias nocivas possíveis se de repente se tornasse carnívoro. Encher-se-ia notadamente de ácido úrico e de urato. .. Ora, o urato, quanto a ele, tem hábitos particulares. O hábito particular do urato é ter uma fraqueza pelo sistema nervoso e pelo cérebro. Se o boi comesse diretamente carne, resultaria disso uma secreção de urato em enorme quantidade, o urato iria ao cérebro e o boi enlouqueceria (...). Se pudéssemos fazer a experiência de alimentar todo um rebanho de bois dando-lhes pombas, obteríamos um rebanho de bois completamente loucos....

....Temos um casal de velhos
amigos que perdeu um filho de cerca de trinta anos.
Este morreu há poucos anos, bastante rapidamente, em pouco
mais de um ano, de uma doença qualificada de "rara" pela faculdade
e descrita como uma doença de Creutzfeldt-Jacob. Esse jovem, divorciado
e pai de uma criança, consumia muita carne. Com o distanciamento,
os sintomas descritos por sua família: perda de equilíbrio,
depois coma, assemelham-se totalmente aos da doença da
vaca louca. Penso que numerosos casos de óbito não são
levados ao conhecimento do público. A razão é simples: os
parentes, os próximos, são em geral esmagados
pela dor e a primeira reação quando se abre
um inquérito é pensar "autópsia". Ora, quem desejaria
ver seu próprio filho retalhado depois que seu infeliz corpo
tenha sido exumado? Confesso ter sido eu mesmo
confrontado com um problema semelhante há mais de dez
anos. Meu filho morreu num acidente de mergulho, em
Marselha, após uma prática intensiva de apneia em
grande profundidade. Ora, nenhum dos testemunhos que eu havia recolhido
junto às testemunhas do drama coincidia. Ele morreu cercado
por quatro mergulhadores equipados com cilindros, que o viram
juntar-se a eles no fundo e que não se preocuparam mais com sua
sorte do que com nada. E eram todos profissionais. Um era
comerciante, o outro havia escrito livros sobre o assunto, o
terceiro era, ironia do destino, "médico do
mergulho". Um deles, hoje falecido,
havia-me dito "dos clientes, a gente cuida como leite no fogo, mas
os amigos, eles fazem o que querem". Palavras lamentáveis de um profissional,
pai de família, que havia passado dos sessenta. Lembrando-se
aparentemente de cada detalhe, aquele não havia feito
menção senão de dois companheiros de mergulho, naquele destroço
do "Saint-Dominique" que jaz a trinta metros
de fundo, perto da entrada de Marselha. Ora, graças aos outros
soube que havia um quarto mergulhador, um brasileiro,
cujo rastro tive muita dificuldade de encontrar e que me declarou
logo, quando o chamei ao telefone "como
você conseguiu meu número?". Não se tratava de um homicídio,
é claro, mas simplesmente de uma série de imprudências, de negligências
acumuladas. Não se deixa um rapaz de 23 anos fazer o ludion
a trinta metros de fundo (eu ignorava que meu filho praticava esse
tipo de atividade extremamente perigosa) sem um mínimo de vigilância.
Não se preocupa com a ausência a bordo de um apneísta,
no momento em que o barco se afasta, depois de ter subido
a bordo e ter recolhido a âncora. A mãe de meu
filho queria que um inquérito fosse aberto. Eu disse "para que
serve, isso não o trará de volta à vida" e pensava no
primeiro gesto que faria um juiz de instrução: ordenar uma autópsia do
corpo.

....Para voltar a esta
história de vaca louca, ela é apenas uma das primeiras consequências
da loucura dos homens. Outras se seguirão. A causa primeira é a
corrida ao lucro, a obsessão pela rentabilidade. Os espectadores haviam
sem dúvida rido muito ao ver o filme de de Funès intitulado
"l'aile ou la cuisse" em que o diretor ridicularizava
aquele que o falecido Desproges havia outrora chamado "o Napoleão
da restauração rápida". Hoje, sabemos realmente
o que comemos?

....Posso dizer uma coisa
: desde que essa epidemia começou, minha mulher e eu
não tocamos mais num bife. Não por causa de uma
inquietação doentia, obsessiva, mas considerando isso
como um "gesto militante". Se o público não boicota os produtos
que põem sua vida em perigo, não serão os poderes públicos que se preocuparão
com o problema, eles que têm o olho grudado nas sondagens e nos boletins
de voto. Os responsáveis não são os criadores, nem os camponeses.
São aqueles que deveriam gerir o país, aqueles que "esquecem"
de proibir a importação de farinha animal proibida em outros países.
Ora, as bobagens, a gente as acumula, e continuará. Até uma data
bastante recente, a ecologia parecia ser um movimento de
países ricos, de doces sonhadores. Falava-se "dos verdes" como
se falava de uma burguesia sessenta-e-oitista atrasada. Daniel Cohn-Bendit
não se havia tornado um dos campeões desse movimento, na Alemanha
?

....Ouve-se por toda parte gente
falar de "reequilíbrio dos ecossistemas"
acrescentando "sempre foi assim". Sim, espécies desaparecem,
e daí? Os dinossauros também desapareceram,
não? Era preciso se preocupar com a camada de ozônio, o aquecimento
da atmosfera? Tudo isso não era um pouco superestimado,
a golpes de mídia?

....Cada um pensa o que quer.
Vi o Egito neste inverno. A célebre barragem de Assuã
definitivamente regularizou seu curso (mas já era assim com uma barragem mais modesta, construída pelos ingleses).
Essa barragem deu origem a um imenso reservatório de água: o
lago Nasser, ao sul de Assuã, que fornece eletricidade a todo
o Egito, o qual pôde assim conhecer um mínimo de industrialização
(ou pelo menos de equipamento). Em contrapartida, o Nilo, ao longo de suas cheias
anuais, deixou de enriquecer o solo com o limo mais fértil
da Terra. O egípcio deve irrigar, pôr adubos por toda parte. Mas
há pior. Não sendo mais alimentado pelo aporte de limo, o
delta é erodido pelas correntes marinhas: a costa
recua, rapidamente. Não se havia previsto isso. No entanto, governar
é prever. Mas o que era preciso fazer? O Egito, cuja natalidade
é uma das mais altas do mundo, devia passar ao largo
de um mínimo de desenvolvimento industrial? Contentar-nos-emos em observar
que de cada lado dessa faixa verde Rá lança seus raios.
O Egito vive cercado de uma poderosa energia solar, que
ninguém teria por um segundo sonhado em explorar, não
apenas com a ajuda de captores fotovoltaicos, mas focalizando
essa energia com espelhos cilíndricos, dirigindo essa energia
gratuita e não poluente para uma central térmica. Outras soluções
eram possíveis, pois, para criar energia,
sob qualquer forma que seja, é preciso, o princípio de Carnot exige, uma fonte
quente e uma fonte fria. O Nilo ou mesmo o mar bem próximo podia
servir de fonte fria. Mas teria sido pensar de outro modo.

....Mais perto de nós, o
Somme foi nesta primavera de 2001 devastado por inundações.
Houve muitos danos. Por quê? Havia, é certo, chovido muito
naquele inverno e o lençol freático estava saturado, incapaz
de absorver um forte aporte hídrico. O Somme também corre lentamente.
Apenas 43 metros de desnível até o Canal da Mancha.
Mas havia também outra coisa: a agricultura intensiva, como observava
um velho camponês, fez desaparecer o bocage. Ora, esse conjunto
de sebes cria uma perda de carga em relação a qualquer escoamento
fluido. A água não pode assim descer as planícies sem retenção. Comparar
duas terras saturadas de água, uma com e outra sem bocage, é
comparar o escoamento da água sobre um capacho e sobre uma laje cimentada.
Não se passa da mesma maneira. Não é preciso ser
engenheiro para imaginá-lo.

....E as bobagens se acumulam,
para ganhar mais, mais rápido. Depois de mim, o dilúvio..... Está
feito.

....Os russos desviaram
rios, para irrigar culturas de algodão, único aporte de água do
mar de Aral, mar fechado, que elimina esse aporte por evaporação.
Em algumas décadas esse mar, preciosa reserva de água
doce, derreteu como neve ao sol. Depois de mim, o deserto.

....Falo da Rússia, mas,
como me observava Souriau, vá ao primeiro supermercado
que encontrar e dirija-se à seção de "produtos frescos". Você ali
encontrará numerosos pratos prontos, em bandejas. Tudo está ali,
até o gosto. Um sistema de refrigeração
mantém esses produtos a uma temperatura agradável, sem
mais. Não é congelado. Na verdade, essas mesmas bandejas poderiam
muito bem ser armazenadas e apresentadas à
temperatura comum, até em pleno sol. Por quê? Porque
não contêm mais a menor bactéria, todas elas tendo sido
eliminadas por irradiação, após passagem por um ...
cíclotron. Mas você imagina como os consumidores reagiriam
se esses produtos fossem propostos à venda com a menção
"esterilizado por irradiação nuclear"?

....Tudo isso não é de ontem.
Eu tinha um amigo, engenheiro do CEA. Há trinta anos começavam
os primeiros ensaios de conservação por irradiação:

  • Está vendo, estes morangos. Foram submetidos
    a um bombardeio de gamas, em seu saco plástico estanque.
    Isso foi há três meses: dir-se-ia que acabaram de ser colhidos.

Esperou-se, depois se pôs isso
no mercado. O que se tornam essas biomoléculas submetidas a
esse intenso bombardeio? Nós não sabemos estritamente nada. Os cânceres
não têm cheiro, e há, hoje em dia, tantas maneiras de contrair
um. Só temos a dificuldade da escolha, desde que nos dizem que as frutas frescas,
e particularmente as "frutas tradicionais", que desaparecem
progressivamente das bancas, substituídas por outras, que se
conservam melhor, nos fornecem naturalmente anti-oncogênicos.

....Esse mesmo amigo havia-me contatado
para que eu ilustrasse, com desenhos, um estudo que o CEA
acabara de concluir, destinado a medir a quantidade de produtos
químicos efetivamente absorvidos pelas plantas quando se as regava
com adubo. Havia-se então utilizado traçadores radioativos e a conclusão
era mais que evidente: 95% dos adubos simplesmente
não eram absorvidos, tudo escorrendo para o lençol freático.
Isso foi há trinta anos.

....A Natureza parece ter sua lógica
e nós a nossa e não são as mesmas, aparentemente. Quando
se veem as bobagens que se cometem, pesadas de consequências
em todos os planos, o dinheiro que se desperdiça, em particular nos armamentos,
acaba-se sonhando com uma doce utopia, em que os biólogos do
INRA deixariam a Natureza se virar, melhor que eles, em que
se deixaria de enxertar genes de medusas fosforescentes
em coelhos, criando perigosas quimeras, e em que
nos contentaríamos em recolher toda a energia "doce" que
anda por aí ( o sol nos envia mais de um quilowatt por metro quadrado
!). Seria menos sofisticado; menos "hi-tech" mas sem
dúvida muito menos perigoso.

....Decididamente, a humanidade
parece doente de sua ciência e de sua tecnologia, mais que qualquer outra coisa.