Salomão, rei de Israel
Sobre a evacuação de Gaza
18 de agosto de 2005
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Lembram-se de que eu havia sugerido, para resolver os problemas israelenses-palestinos: patrocinar casais mistos. Acredito que o Rei Salomão teria exatamente a mesma opinião. A principal qualidade desse grande rei foi a tolerância (que não excluía a firmeza, mas uma firmeza dissuasiva... que ele nunca teve que exercer).


Sadoc, o sumo sacerdote, lembrando-se de que Salomão havia firmemente posto abaixo seu predecessor, que havia conspirado contra ele, mantinha-se cuidadosamente à distância, sabendo muito bem que seu rei era "a mão de ferro dentro da luva de veludo".
Salomão comerciou com todos os seus vizinhos. Importou a arte dos metais da Fenícia, casou-se com uma princesa de Tiro, cujo povo adorava a deusa Astarte. Recebeu com festa a Rainha de Sabá (que provavelmente vivia no Iêmen), estabeleceu sólidas relações com Hiram, rei de Tiro, com quem se tornou grande amigo. Este lhe fornecia madeira e trabalhos de fundição.

Adicionalmente, Salomão realizou uma reorganização política do país, sem levar em conta a territorialidade tradicional, para que os chefes das tribos lhe deixassem em paz. Ele cedeu à tradição religiosa construindo um templo magnífico que deixou uma marca em todas as memórias e onde podiam ocorrer cerimônias muito espectaculares.




É claro que tudo isso não estava muito de acordo com a lei de Moisés, mas é preciso reconhecer que o reinado de Salomão, que durou trinta e sete anos (de 970 a 933 a.C.), foi um dos mais pacíficos da história do mundo. Tudo isso foi feito às custas da ortodoxia religiosa. Salomão permitiu que em Jerusalém mesmo muitos cultos fossem praticados em honra a deidades estrangeiras. Se Salomão fosse rei de Israel hoje, ele consideraria e proporia um projeto tão absurdo quanto ver coexistir na "Esplanada das Mesquitas", antigo templo judaico de Herodes, mesquitas e um templo judaico reconstruído. Isso se imporia até mesmo para ele como uma evidência, para trazer a paz ao país.
Com sua morte, tudo desmoronou no mais completo caos. O reino de Israel até se dividiu em "Israel-Norte" e "Israel-Sul". Você lerá nas páginas seguintes da Bíblia as convulsões inenarráveis desse reino de Israel, que conheceu inúmeras derivações. Alguns de seus reis sucessivos chegaram até a praticar... sacrifícios humanos, como Manassés, filho de Ezequias, que reinou 55 anos ( Bíblia, 2 Reis: 21,6).

Derivações históricas, religiosas, intrigas palacianas de uma banalidade extrema, duas deportações para Babilônia. Retorno, reorganização. No fim, Roma conquistou o mundo. Israel caiu sob seu jugo, tentou uma última vez se rebelar, em 72 e novamente em 132 depois de Cristo. Foi então a diáspora definitiva, os romanos mudando até o nome de Jerusalém para Aelia Capitolina, após terem destruído o imenso templo construído por Herodes, em 50 a.C. (dos restos, sabe-se, hoje constitui-se a "Esplanada das Mesquitas", a mesquita de Omar tendo sido construída exatamente no local do antigo santuário judaico).
A história da Palestina então se confunde com a do Império Muçulmano. Após a guerra de 1939-1945, os judeus de todos os países pediram insistentemente o retorno a uma terra que pudesse ser para eles um refúgio, um abrigo que os protegesse de pogroms, de holocaustos como o tentado pelos nazistas em sua horrível "solução final". Já retratei em outro documento a história moderna da Palestina, país criado ex novo em 1947 pela ONU. Entre as medidas iniciais adotadas, Jerusalém tornou-se um território internacional, o que fazia sentido, já que três cultos têm ali suas raízes: judaico, cristão e muçulmano. Uma enclave que teria sido administrada pela Organização das Nações Unidas.
Mas o projeto falhou imediatamente. Os países árabes, carecendo de realismo e subestimando a tenacidade dos israelenses, tentaram várias vezes expulsá-los para o mar. Não apenas essas operações foram fracassadas, mas levaram os israelenses a uma paranoia completa (plenamente compreensível), levando-os a anexar e controlar territórios cada vez maiores.
Conhecemos o resto. Agora é necessário construir uma solução para recuperar esse verdadeiro desastre histórico. Isso começa com a evacuação da faixa de Gaza. O resto será assunto de negociações entre as duas partes, longe de qualquer fanatismo religioso. Coloquei este documento para lembrar que segundo a própria tradição judaica, o território de Gaza, outrora terra dos filisteus, só foi integrado ao mundo judaico na época do "Grande Israel", ou seja, durante o reinado de Salomão. Alguns judeus ortodoxos lutam para que Israel seja restabelecido nessas fronteiras, e, para esse fim, impulsionaram uma colonização intensiva sob o pretexto de motivos religiosos. O que eles esquecem ao dizer é que Salomão, embora tenha mantido a paz mais completa durante trinta e sete anos, praticou o mais desenfreado oecumenismo, permitindo que cultos mais exóticos tivessem seus próprios templos e rituais em Jerusalém mesmo.
A religião é, então, um fator de unidade ou de desunião, de desordem? Temos o direito de nos perguntar.
É um fato. Na época atual, muitos movimentos religiosos se radicalizam sistematicamente. É verdadeiro para a religião muçulmana, mas também para a religião judaica, assim como para a religião católica romana (veja a personalidade do novo papa, Bento XVI, cuja amplidão de espírito não salta aos olhos) e a evolução do movimento fundamentalista protestante nos Estados Unidos (ramificações metodista, batista ou pentecostal, entre outras). Pode-se considerar isso, dentro dos povos (nas esferas políticas é outra questão) como uma espécie de resposta desesperada diante da ausência de valores morais e políticos. As nações se desonram, as classes políticas revelam cada vez mais seu cinismo e corrupção. Em outros lugares, o tribalismo mais primitivo se desencadeia. As classes dirigentes já não conseguem mais disfarçar seu egoísmo fundamental. Nos pavilhões nacionais, as manchas de sangue reaparecem, as histórias, sob os feitos de armas, revelam suas turpidez escondidas. Sob as palavras "Liberdade" e "Democracia", países poderosos tentam impor regimes neocoloniais sem vergonha. Os valores morais se desviam. A fome grassa. A infância é desrespeitada. O conceito de família se desfaz. A invasão do planeta pelo capitalismo selvagem evoca a ressurgência do culto do Novilho de Ouro.
Os homens de fé se retraiam, agarram-se ao que podem. Infelizmente, a história sempre mostrou que o integralismo, a intolerância, o fanatismo sempre levaram aos conflitos mais sangrentos. A Palestina é o cenário de um problema político de importância decisiva para o futuro do planeta. Confundi-lo com um problema de ordem...