Homenagem a Jacques Benveniste

humour

Expulse o sobrenatural, ele volta a galope!

7 de maio de 2007

Pode-se dizer: "por que um título desses, numa página que pretende ser uma homenagem ao meu amigo falecido, Jacques Benveniste?".

É uma história que tínhamos começado a contar, com um de seus alunos, Francis Beauvais, autor de dois livros, que estão em "leitura livre no seu site:

http://www.mille-mondes.fr

livros_beauvais

Tínhamos previsto construir isso como um diálogo. Mas isso exigia muito trabalho e havia outras urgências. Vou, portanto, resumir em grandes traços, agora que Jacques morreu.

Ele era tudo menos crente. Jacques, vindo de uma família judia, não acreditava nem em Deus, nem no Diabo. Conservava uma fé ingênua na Ciência. Esta lhe pregou a mais louca das peças possíveis. Não vou retomar essa história em detalhes. Jacques um dia havia sido confrontado com o problema das Altas Diluições. Isso tinha começado com veneno de abelha. Ao injetá-lo em sangue humano provocava-se uma reação do tipo imunológico. Jacques era antes de tudo um imunologista. Eu não entendo muito disso, exceto que essa reação se traduz por um comportamento de glóbulos brancos chamados basófilos. Estes "degranulam", liberam substâncias contidas em minicápsulas e fala-se então de "degranulação dos basófilos". Evidencia-se o fenômeno corando essas coisas e pode-se contar "o número de basófilos que degranularam" com a ajuda de um microscópio.

Eis então meu Jacques que um belo dia segue o que lhe haviam sugerido. Dilui, dilui, até não poder mais. O efeito se atenua, se atenua. E então, sem aviso, ei-lo que volta a subir, quando em função dessa diluição não deveria mais restar a menor molécula de veneno naquela maldita proveta.

- Dilua... dilua, sempre resta alguma coisa.....

Ben envia esse trabalho à revista Nature. O referee o aceita. Está dentro das normas. O especialista estima que os autores são honrosamente conhecidos. Mas antes que o artigo seja publicado, John Maddox, o editor-chefe dessa prestigiosa revista, tem um acesso de fúria.

- Nada disso na minha casa!

Ele intima Ben a retirar seu artigo, dizendo-lhe que, em caso de recusa, garante-lhe os piores problemas.

Jacques recusa. O artigo é publicado e é o escândalo. A Nature envia ao Inserm 200, na casa de Benveniste, um comando constituído por biólogos, mais um físico, acompanhados por Randi, um prestidigitador encarregado de detectar fraudes. É insultante. Mas a equipe se presta ao jogo, porém os resultados se revelam decepcionantes. As garrafas de champanhe ficam tristemente na geladeira.

Maddox exulta, alega que no artigo publicado a contagem dos famosos grânulos, efetuada por uma laboratorista, está eivada de erro. Benveniste lançar-se-á então numa luta que, ao longo dos anos, acabará com sua saúde. Ele busca uma experiência isenta dessa possível falha humana e encontra o meio de acelerar as batidas de um coração de rato com não sei mais o quê, mas sempre igualmente diluído. Charpak, acadêmico, prêmio Nobel de física, é convidado ao laboratório e testemunha uma experiência bem-sucedida. Injeta-se o que, em função das diluições efetuadas, não deveria mais ser que água pura. E eis o coração disparando sob os olhos do acadêmico.

Charpak se retira, impressionado.

Ele pede que a experiência seja reeditada em outro lugar e desta vez é um fracasso. Jacques não entende. Os anos passam, ele batalha, busca um protocolo impecável. Algumas de suas ideias são muito lógicas. As proteínas andam frequentemente, para não dizer sempre, com um cortejo muito importante de moléculas de água, que as envolvem como um casulo. Como, nessas condições, o modelo do Instituto Pasteur "chave-fechadura" poderia funcionar? Como essas proteínas poderiam interagir, já que circulam rodeadas desse colchão que mascara suas formas.

Simples, diz Ben: elas se comunicam por meio de ondas eletromagnéticas.

A palavra está lançada. Em biologia, o eletromagnetismo é bruxaria.

- Diluições Perigosas....

*- De onde vem a energia, diz um químico?

  • As proteínas servem de antena, de ressonadores. Elas exploram a energia eletromagnética ambiente, explica Jacques. Aliás, quando encerro essas moléculas ao abrigo de uma tela protetora, de uma gaiola de Faraday, elas não se comunicam mais!*

Benveniste lança-se então em experiências nas quais faz passar através de uma substância biológica, da qual pretende poder registrar a "assinatura", uma onda eletromagnética, e o que emerge vai "ativar água pura", situada em seu caminho. Mais forte ainda: ele pretende armazenar em disquete o sinal digital, sua assinatura, de certa forma o "código de barras" da biomolécula.

Entretanto o Inserm o privou de suas belas instalações, no primeiro andar do Inserm de Clamart. Teimoso, ele instala barracões Algeco no pátio do laboratório e retoma suas experiências. Tudo isso durará anos, de uma luta extenuante, danosa, para um homem com o coração remendado inúmeras vezes. Mas Benveniste está persuadido de que a Natureza dará seu veredicto. Tudo é uma questão de protocolo, pensa ele, confiante. Metodicamente tenta eliminar toda intervenção humana. Trabalha então com experiências de coagulação. As diluições são efetuadas por um robô, assim como o conjunto das manipulações.

Às vezes os resultados se atrapalham, mas Jacques tem confiança:

- Talvez não dominemos todos os parâmetros, mas acabaremos por chegar a algo totalmente reprodutível. E então!....

E então o caso será julgado, decidido. Ele terá se batido o suficiente para isso, esgotando suas últimas forças. Percorria o planeta em busca de subsídios, dava conferências. Quantas vezes lhe disse:

- Jacques, você vai deixar a pele nisso!

Mas ele não podia mais voltar atrás. Tinha criado a "DIGIBIO", o primeiro "laboratório de biologia digital". Tinha encontrado patrocinadores, investidores, registrado patentes. Era a corrida para frente completa, sem a menor possibilidade de retorno. Jacques se batia, se batia, só pensava em melhorar de maneira irrefutável sua metodologia. Acabou por interessar... o exército americano em suas pesquisas. Por que o exército? Isso, mistério. O fato é que ele e seus colaboradores foram para o outro lado do Atlântico, multiplicaram as demonstrações bem-sucedidas.

Os americanos ficaram impressionados, compraram um robô idêntico à máquina francesa e realizaram, sob a direção de Jacques, essas espantosas experiências.

Depois veio o epílogo, o cair do pano. Quando Benveniste voltou à França, os americanos telegrafaram:

*- Cancelamos o contrato. Não funciona mais....

  • Mas ora! Vocês viram. Quando estávamos aí, funcionava magnificamente!
  • Sim, sim, perfeitamente. Não dizemos o contrário. Mas analisamos o conjunto das experiências e descobrimos qual era o parâmetro-chave que fazia funcionar.
  • E é?.....
  • Quando seu colega Fulano estava presente ao lado da máquina, funcionava sempre. Mas desde que ele voltou com vocês, acabou... É tão simples quanto isso. É ele que faz a coisa funcionar, à distância.*

Jacques já sabia, mas recusava desesperadamente acreditar. Dizia-me:

- É estranho. Quando esse sujeito está lá, simplesmente sentado a alguns metros da máquina, funciona melhor. Diria mesmo que funciona sempre. Não dá para entender..

Tudo isso cheirava a paranormal a léguas de distância. Posso testemunhar: era tudo menos a xícara de chá de Benveniste. O exército americano era sua última carta. Os americanos são pragmáticos:

- Quando o amigo de Benveniste está presente, funciona, o tempo todo. Quando ele não está, não funciona mais. É assim. Mas resta que no final é um fracasso, portanto cancelamos o contrato....

Eis a verdade, tal como a conheci e tal como a conhecem também seus próximos colaboradores. Um cientista totalmente racionalista, totalmente honesto, buscando o fio condutor da pura razão, tinha simplesmente se batido, sem saber, com a pior das estirpes possíveis, a interação espírito-matéria.

Aqueles que creem que a Natureza obedece ao reprodutível, é racional, enfiam o dedo no olho até o ombro. É o caso na maior parte do tempo, mas às vezes ela lhes reserva péssimas piadas, que colocam o cientista completamente em falso. O não-reprodutível, o incontrolável nos deixam completamente desarmados. Prefiro a matemática. Isso é reprodutível, ao menos em princípio.

três vezes sete dá vinte e um, todos os dias da semana....

Enfim, digo isso, mas há matemáticos com vidas engraçadas. Há pouco tempo filmava-se a entrevista de um deles que nos contava como falava com as árvores, de onde tirava sua ciência. Como, quando jovem, tinha estado numa seita que se dedicava à magia negra e como o chefe deles tinha vendido sua alma ao diabo por um teorema. Uma coisa importante, ainda assim. A soma dos cubos dos números inteiros é um número irracional, ou algo parecido.

O jovem que havia filmado essa sequência, sob os lambris dourados, apagou-a por descuido, por causa do champanhe. Mas talvez seja melhor assim. Ainda assim, uma dúzia de pessoas pôde ver com seus olhos, ouvir com seus ouvidos o que eu conhecia de longa data. Há coisas que não se sabe classificar. É assim.

Voltemos a Jacques. Ele estava esgotado. Tinha se batido demais. A vida se retirava dele. Seu coração remendado despedaçava-se. Morreu numa mesa de operação. Bater-se, sei o que é, pois sim! E me pergunto por que, entre nós três: ele, Bounias e eu, sobrevivi. Sem dúvida porque soube inúmeras vezes desengatar para encontrar abrigo em outro lugar, em outro domínio. Nas histórias em quadrinhos, por exemplo. É por isso que fiz tantas coisas. Sei o que é aguentar fogos cruzados, implacáveis. Repenso a frase de Rémy Chauvin:

- No nosso mundo universidade-pesquisa, não se deve exagerar nada. Nunca vai além do assassinato!

A seguir, um desenho que Jacques tinha emoldurado, em seu escritório:

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Ben e Bounias morreram "na frente de pesquisa". Mas o epílogo mais louco é o que Jacques conheceu.

Vou terminar citando uma anedota, que se encontra no livro do sujeito cujo nome esqueci. Ele me lembrará à sua boa memória. Um dia um sujeito chega ao laboratório de Benveniste com uma "máquina" de sua invenção. Era... uma simples caixinha, vazia. Sem alimentação, sem antena, nada. Os detalhes estão no livro, se é que se pode chamar isso de detalhes. O sujeito lhes faz uma demonstração de seu "aparelho" que faz milagres, provoca inúmeros fenômenos, sob demanda. Benveniste e seus colaboradores ficam estarrecidos. Quando o homem parte com sua caixa vazia, um próximo colaborador de Benveniste lhe diz:

*- Bom, o que fazemos agora?

  • Começamos por fechar a boca.*

.


O tempo passou. Jacques morreu bobamente, ultrapassado por uma quimera viciosa, ele que era a própria honestidade. Numa época eu tinha feito desenhos. Reencontrei-os e entrego a vocês, em desordem. Uma espécie de brechó digital..

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