Os Quaternions
A esfera S3 e os quaternions
BK
Se a esfera S3 se parece mais com o círculo S1 do que com a esfera S2, é porque ambos correspondem ao grupo das unidades de um corpo de números: o corpo dos números complexos para S1 e o corpo dos quaternions para S3. Mas isto não funciona com S2 porque R3 não é um corpo de números.
Para compreender estas estruturas, vou recordar como se faz de R2 um corpo de números mergulhando-o na álgebra das matrizes quadradas 2×2 com coeficientes reais. Veremos em seguida que uma construção semelhante permite dotar R4 de uma estrutura de corpo (o corpo dos quaternions) mergulhando-o na álgebra das matrizes quadradas 2×2 com coeficientes complexos.
1. O corpo dos números complexos
Seja M2(R) o espaço das matrizes 2×2 com coeficientes reais. É o espaço das matrizes
| a |
|---|
| b |
|---|
| c |
|---|
| d |
|---|
| d |
|---|
ö ÷ ÷ ø | d |
|---|
| d |
|---|
onde a,b,c,d são reais. Sabemos:
-
somar duas matrizes de M2(R),
-
multiplicar uma matriz de M2(R) por um número real,
-
multiplicar duas matrizes de M2(R) entre si.
Para resumir estas três propriedades, dizemos que M2(R) é uma álgebra. Ela é de dimensão 4 porque são necessários 4 parâmetros para descrevê-la.
A todo vetor (x,y) do plano R2, podemos associar a matriz quadrada com coeficientes reais
| x |
|---|
| y |
|---|
| - | y |
|---|
| x |
|---|
| x |
|---|
ö ÷ ÷ ø | x |
|---|
| x |
|---|
Observamos então que
- a soma de 2 tais matrizes é ainda da mesma forma
| x | 1 | + x | 2 |
|---|
| y | 1 | + y | 2 |
|---|
(y
1
- y
2
)
| x | 1 | + x | 2 |
|---|
| x | 1 | + x | 2 |
|---|
ö ÷ ÷ ø ,| x | 1 | + x | 2 |
|---|---|---|---|
| x | 1 | + x | 2 |
|---|
- o produto por um real l de uma tal matriz z é ainda deste tipo
| l | x |
|---|
| l | y |
|---|
| - | l | y |
|---|
| l | x |
|---|
| l | x |
|---|
ö ÷ ÷ ø ,| l | x |
|---|---|
| l | x |
|---|
- o produto matricial de 2 tais matrizes também
x
1
x
2
y
1
y
2
y
1
x
2
- x
1
y
2
- (y 1 x 2 + x 1 y 2 )
x
1
x
2
y
1
y
2
x
1
x
2
y
1
y
2
ö ÷ ÷ ø .
x
1
x
2
y
1
y
2
Construímos portanto um subespaço de M2(R), que denotaremos C, estável por adição, multiplicação por um escalar e multiplicação matricial. Dizemos que C é uma subálgebra de M2(R). Ela é de dimensão 2. Podemos notar uma propriedade importante desta álgebra: ela é comutativa
z
1
z
2
= z
2
z
1
.
z
1
z
2
= z
2
z
1
.
O determinante de uma matriz z Î C escreve-se
| x |
|---|
| y |
|---|
| - | y |
|---|
| x |
|---|
| x |
|---|
ê ê ê ê = x2 + y2 ,| x |
|---|
| x |
|---|
por conseguinte, toda matriz z em C não nula é invertível e a sua inversa
--- ****
| Det | (z) |
|---|
æ ç ç è
| x |
|---|
| - | y |
|---|
| y |
|---|
| x |
|---|
| x |
|---|
ö ÷ ÷ ø | x |
|---|
| x |
|---|
pertence igualmente a C. Dizemos que C é um corpo. Acabámos de redescobrir o corpo dos números complexos.
A matriz correspondente ao vetor (1,0) é a matriz unidade ****
| 1 |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| 1 |
|---|
| 1 |
|---|
ö ÷ ÷ ø | 1 |
|---|
| 1 |
|---|
A matriz correspondente ao vetor (0,1), denotamo-la i ****
| 0 |
|---|
| 1 |
|---|
| - | 1 |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø | 0 |
|---|
| 0 |
|---|
Ela possui a propriedade notável
i
2
=
1
i
2
=
1
Com estas notações, vemos que todo número complexo se escreve de maneira única
| z = x | 1 | + y | i |
|---|
| z = x | 1 | + y | i |
|---|
onde x e y são números reais.
O conjugado de um elemento z em C define-se como a transposta da matriz z
| x |
|---|
| - | y |
|---|
| y |
|---|
| x |
|---|
| x |
|---|
ö ÷ ÷ ø | x |
|---|
| x |
|---|
No corpo dos números complexos há dois subespaços notáveis. Por um lado há os múltiplos da matriz unidade 1, isto é, o conjunto das matrizes da forma
| x |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| x |
|---|
| x |
|---|
ö ÷ ÷ ø | x |
|---|
| x |
|---|
que é estável por adição e multiplicação. É o espaço real, idêntico ao corpo dos reais e que aparece como um subcorpo de C. É igualmente definido pela equação
| z = | - | z |
|---|
| z = | - | z |
|---|
Há também o subespaço das matrizes z de traço nulo (o traço de uma matriz é a soma dos seus elementos diagonais)
| 0 |
|---|
| y |
|---|
| - | y |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø | 0 |
|---|
| 0 |
|---|
Chamamos-lhe o espaço imaginário. É estável por adição mas não por multiplicação. Notamos que é igualmente o espaço das matrizes 2×2 antissimétricas.
Com estas definições, o produto escalar ordinário de dois vetores de R2 calcula-se facilmente. Se z1 é a matriz correspondente a (x1,y1) e z2 é a matriz correspondente a (x2,y2), então --- ****
(x 1 ,y 1 )·(x 2 ,y 2 ) = 1 2 Tr (z 1 - z 2 )
(x 1 ,y 1 )·(x 2 ,y 2 ) = 1 2 Tr (z 1 - z 2 )
A norma de um vetor (x,y) correspondente a z escreve-se
**** --- ****
\ \ (x,y) \ \ 2 = x 2 + y 2 = Det (z) = 1 2 Tr (z - z )
\ \ (x,y) \ \ 2 = x 2 + y 2 = Det (z) = 1 2 Tr (z - z )
Chamamos-lhe também o módulo ou a norma do complexo z e denotamo-lo | z|. Temos naturalmente | z1z2| = | z1|| z2|.
O subgrupo das unidades do corpo C, que denotamos U(1), é o conjunto dos elementos z de C que verificam
\ z\ 2 = z - z = x 2 + y 2 = 1 .
\ z\ 2 = z - z = x 2 + y 2 = 1 .
Este conjunto é estável por multiplicação. O elemento 1 pertence a U(1). Todo elemento de U(1) é invertível e a sua inversa está ainda em U(1). Dizemos que U(1) é um grupo. Atenção, a soma de dois elementos de U(1) não está em U(1) em geral. A construção anterior fez portanto aparecer o círculo S1 como um grupo, o grupo dos elementos unitários de C. A tangente ao círculo S1 no ponto 1, o que se chama a álgebra de Lie do grupo U(1), é a reta imaginária definida por
| Tr | (z) = 0 . |
|---|
| Tr | (z) = 0 . |
|---|
2 O corpo dos quaternions
Definição.
Retomemos a construção anterior para dotar R4 de uma estrutura de corpo. Seja M2(C) o espaço das matrizes 2×2 com coeficientes complexos. A todo par de números complexos (a,b) podemos associar a matriz quadrada com coeficientes complexos
| a |
|---|
| b |
|---|
| - | - | b |
|---|
| - | a |
|---|
| - | a |
|---|
ö ÷ ÷ ÷ ø | - | a |
|---|
| - | a |
|---|
Observamos então que:
- a soma de 2 tais matrizes é ainda da mesma forma
| a | 1 | + a | 2 |
|---|
| b | 1 | + b | 2 |
|---|
(b
1
- b
2
)
a
1
a
2
a
1
a
2
ö ÷ ÷ ÷ ø ,
a
1
a
2
- o produto por um real l de uma tal matriz q é ainda deste tipo
| l | a |
|---|
| l | b |
|---|
| - | l | - | b |
|---|
| l | - | a |
|---|
| l | - | a |
|---|
ö ÷ ÷ ÷ ø ,| l | - | a |
|---|---|---|
| l | - | a |
|---|
- o produto matricial de 2 tais matrizes também
a 1 a 2 - b 1 - b 2
a
1
b
2
- b
1
a
2
- a 1 - b 2 - - b 2 - a 1
- a 1 - a 2 - - b 1 - b 2
- a 1 - a 2 - - b 1 - b 2
ö ÷ ÷ ÷ ø .
- a 1 - a 2 - - b 1 - b 2
Construímos portanto uma subálgebra de M2(C) que denotaremos K. Mas contrariamente a C, esta álgebra não é comutativa. Com efeito, temos por exemplo
| i |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| - | i |
|---|
| - | i |
|---|
ö ÷ ÷ ø æ ç ç è
| 0 |
|---|
| i |
|---|
| i |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø = æ ç ç è
| 0 |
|---|
| - | 1 |
|---|
| 1 |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø | 0 |
|---|
| 0 |
|---|
enquanto que
| 0 |
|---|
| i |
|---|
| i |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø æ ç ç è
| i |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| - | i |
|---|
| - | i |
|---|
ö ÷ ÷ ø = æ ç ç è
| 0 |
|---|
| 1 |
|---|
| - | 1 |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø | 0 |
|---|
| 0 |
|---|
O determinante de uma matriz q Î K escreve-se
| a |
|---|
| b |
|---|
| - | - | b |
|---|
| - | a |
|---|
| - | a |
|---|
ê ê ê ê ê = | a|2 + | b|2 ,| - | a |
|---|
| - | a |
|---|
por conseguinte, toda matriz q em K não nula é invertível e a sua inversa
--- ****
| Det | (q) |
|---|
æ ç ç ç è
| - | a |
|---|
| - | b |
|---|
| - | b |
|---|
| a |
|---|
| a |
|---|
ö ÷ ÷ ÷ ø | a |
|---|
| a |
|---|
pertence igualmente a K. Chamamos a K o corpo dos quaternions. É também um espaço vetorial real de dimensão 4. Podemos escrever todo quaternion q sob a forma
q = t
1
- x
I
- y
J
- z
K
q = t
1
- x
I
- y
J
- z
K
onde
| 1 |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| 1 |
|---|
| 1 |
|---|
ö ÷ ÷ ø I = æ ç ç è
| i |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| - | i |
|---|
| - | i |
|---|
ö ÷ ÷ ø J = æ ç ç è
| 0 |
|---|
| 1 |
|---|
| - | 1 |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø K = æ ç ç è
| 0 |
|---|
| i |
|---|
| i |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
ö ÷ ÷ ø | 0 |
|---|
| 0 |
|---|
Verificamos sem dificuldade as relações seguintes:
I2 = J2 = K2 = - 1,
IJ = - JI = K , ** JK** = - KJ = I , KI = - IK = J.
O produto escalar ordinário de dois vetores em R4 representados pelos quaternions
q
1
= t
1
1
- x
1
I
- y
1
J
- z
1
K
q 1 = t 1 1 + x 1 I + y 1 J + z 1 K
e
q
2
= t
2
1
- x
2
I
- y
2
J
- z
2
K
q 2 = t 2 1 + x 2 I + y 2 J + z 2 K
escreve-se
--- ****
(t 1 ,x 1 ,y 1 ,z 1 )·(t 2 ,x 2 ,y 2 ,z 2 ) = 1 2 Tr (q 1 - q 2 )
(t 1 ,x 1 ,y 1 ,z 1 )·(t 2 ,x 2 ,y 2 ,z 2 ) = 1 2 Tr (q 1 - q 2 )
A norma de um vetor (t,x,y,z) representado por q escreve-se
**** --- ****
\ \ (t,x,y,z) \ \ 2 = t 2 + x 2 + y 2 + z 2 = Det (q) = 1 2 Tr (q - q )
\ \ (t,x,y,z) \ \ 2 = t 2 + x 2 + y 2 + z 2 = Det (q) = 1 2 Tr (q - q )
Chamamos-lhe também o módulo ou a norma do quaternion q e denotamo-lo | q|. Temos naturalmente | q1q2| = | q1|| q2|.
Quaternions reais e imaginários.
O conjugado de um elemento q em K define-se como a transposta da matriz conjugada de q
| - | a |
|---|
| - | b |
|---|
| - | b |
|---|
| a |
|---|
| a |
|---|
ö ÷ ÷ ÷ ø | a |
|---|
| a |
|---|
Um quaternion q diz-se real se for da forma
| t |
|---|
| 0 |
|---|
| 0 |
|---|
| t |
|---|
| t |
|---|
ö ÷ ÷ ø | t |
|---|
| t |
|---|
onde t é um número real. Isto permite identificar R a um subcorpo de K. O subespaço dos quaternions reais é definido pela equação
| q = | - | q |
|---|
| q = | - | q |
|---|
Define-se igualmente o espaço dos quaternions imaginários H pela equação
| Tr | (q) = 0 . |
|---|
| Tr | (q) = 0 . |
|---|
É um espaço de dimensão 3, gerado por I,J,K. É igualmente definido como o espaço das matrizes M de M2(C), anti-hermíticas
M = t`M = - M*
(M* é a transposta da matriz dos elementos complexos conjugados) de traço nulo
| Tr | (M) =0 |
|---|
| Tr | (M) =0 |
|---|
Observação 1: * No caso do corpo C, tínhamos constatado que o espaço imaginário era constituído pelas matrizes reais 2×2 antissimétricas. Mas o traço de uma matriz antissimétrica *
tM = - M * é necessariamente nulo, o que não é o caso de uma matriz anti-hermítica *
M = t`M = - M .*
*O grupo das unidades. * * *
O subgrupo das unidades do corpo K, que denotamos SU(2), é o conjunto dos elementos q de K que verificam
\ q\ 2 = z - z = t 2 + x 2 + y 2 + z 2 = 1 .
\ q\ 2 = z - z = t 2 + x 2 + y 2 + z 2 = 1 .
É o conjunto dos pontos pertencentes à esfera S3 que aparece assim, munida de uma estrutura de grupo, o grupo SU(2). O espaço tangente (de dimensão 3) à esfera S3, que se chama a álgebra de Lie do grupo SU(2), é o espaço imaginário definido por
| Tr | (q) = 0 . |
|---|
| Tr | (q) = 0 . |
|---|
Poder-se-á verificar que o colchete de Lie, de dois elementos de H, X e Y
| [X,Y] = XY | - | YX |
|---|
| [X,Y] = XY | - | YX |
|---|
pertence ainda a H.
O espaço tangente à esfera S3 num ponto qualquer q obtém-se multiplicando à esquerda por q os elementos do espaço imaginário H
T
q
S
3
= q H.
T
q
S
3
= q H.
Cada geodésica da esfera S3 que parte do ponto 1 na direção X (onde X pertence a H e | X| = 1) é definida por
| q(s) = exp(sX) = cos(s) | 1 | + sin(s) X |
|---|
| q(s) = exp(sX) = cos(s) | 1 | + sin(s) X |
|---|
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