Encontros com Jacques Lacan
Lacan e JPP
15 de abril de 2007
Há alguns anos eu tinha problemas com o fim do mês. Decidi então vender uma carta original que havia recebido do psicanalista Jacques Lacan. Um doutor em psicanálise da Universidade Paris VIII, Fabrice Guyot, se interessou por adquiri-la e o negócio foi rapidamente concluído. Nesse momento, percebeu-se que eu havia sido um dos últimos a encontrar Lacan, e, no mínimo, a dialogar com ele sobre um tema que o havia muito interessado no fim de sua vida: a topologia. Guyot, então, desejava me entrevistar sobre esses encontros, e aqui está o relato, publicado em uma revista de psicanálise.
Pode haver muitos leitores que dirão: "mas, quem é esse Lacan?".
Alguns, da minha geração, o descobriram durante o verão de 68, quando ele deu várias palestras na Sorbonne, às quais assistiram intelectuais e personalidades do show business, atores famosos, cineastas, etc.
Não posso dizer que tenha compreendido bem toda a teoria de Lacan. Tenho apenas vagas lembranças, surgindo de leituras que fiz posteriormente às nossas conversas. Tudo começou em 1979, quando saiu, no número de janeiro da revista Pour la Science, um artigo que escrevi com o matemático cego Berbard Morin, sobre o virar da esfera. O artigo continha, incidentalmente, um virar do toro que eu havia acabado de inventar.
Lacan se manifestou imediatamente. Morin o mandou embora imediatamente. Decidi conhecê-lo, por curiosidade. Essa entrevista é o relato desses encontros em seus escritórios da rua de Lille, em Paris. Esse episódio me permitiu ser testemunha ocular da última técnica utilizada por Lacan na psicanálise, que poderia ser chamada de fast psy. Ele tinha uma secretária chamada Gloria e fumava charutos. Na sala de espera havia vários clientes, deitados. Gloria então aparecia e apontava um dos clientes com o dedo:
- Você!
A pessoa levantava imediatamente. Lacan aparecia no corredor que levava ao seu escritório. O paciente não esperava ser deitado no divã para começar a falar. Ele começava, no corredor, a falar sobre o último sonho que tivera, comendo as palavras. Por que tanta pressa? Porque o Mestre havia acabado de inventar uma nova técnica baseada em sessões que duravam... cinco minutos. Fui testemunha ocular disso. A primeira coisa que Lacan fazia era estender a mão, na qual o cliente colocava imediatamente um dinheiro. Quanto? Não contei. Alguns eram devolvidos à porta sem sequer serem recebidos no seu escritório. Lacan concluía simplesmente dizendo:
- Marque uma consulta com minha secretária.
Não tenho opinião sobre essa concepção bastante original de psicoterapia. Só sei que quando fomos jantar no apartamento que Lacan também possuía na rua de Lille, ele saía com, em uma caixa de papelão, a receita do dia. A pilha de notas era impressionante.
Freud descobriu o inconsciente. Lacan propôs a ideia de que "o sujeito" se esforçava para colocar, em cada uma de suas frases, a essência de sua estrutura psicológica, fosse ela a mais secreta. Segundo Lacan, todo segmento de linguagem deveria ter um duplo sentido. Conhece a piada em que dois psicanalistas entram em um elevador. Durante o trajeto, o porteiro diz:
- Bom tempo hoje.
E os dois saem se perguntando o que o outro poderia ter querido dizer com isso.
Lacan emprestou os conceitos de significante e significado de outro psiquiatra ou linguista. Isso pode ser ilustrado com a frase:
um homem é um homem
A palavra homem aparece duas vezes na frase. Na primeira vez como significado (ou talvez seja o contrário, não me lembro bem). Nesse caso, a palavra homem se refere ao representante masculino da espécie humana. Na segunda vez, a palavra serve para designar os atributos do homem, seja sua virilidade, sua fraqueza, pouco importa. Acredito que, nesse segundo caso, a palavra homem é então usada como significante. Lacan levou a coisa ao extremo ao dizer que em toda frase há um lado significante e um lado significado. Daí a reação dos dois psicanalistas lacanianos, saindo do elevador. Ele utilizou a palavra enantiossemia.
Na geometria temos a palavra enantiomorfia. Dois objetos são enantiomorfos quando um pode ser deduzido do outro por uma simetria em espelho. Assim, sua mão direita e sua mão esquerda estão ligadas por uma relação de enantiomorfia (morphe: forma). Em Enantiossemia temos a raiz grega semios, o sentido. Para Lacan, as frases pertencem a uma leitura dupla. Assim, sob uma aparência tão simples quanto "belo tempo hoje", essa frase poderia revelar, dentro de um contexto a ser descoberto, a expressão da neurose profunda que o porteiro sofria. Porque, para um psicanalista, como para o Dr. Knock:
- Todo indivíduo aparentemente saudável é um neurótico que não sabe disso.
Todos os homens (e as mulheres) têm fantasias. Sua própria vida não é mais do que a expressão de uma fantasia, que Lacan chamava de "fantasia fundamental". A estrutura psíquica dos seres humanos era, para Lacan, essencialmente linguística e conhecemos sua célebre frase:
- O homem não é um indivíduo falante, mas um indivíduo falado.
Nada existe além da linguagem. Acreditamos viver, mas na verdade somos apenas células linguísticas, nadando no meio de um caldo de duas faces: a linguagem. Dessa forma, uma segunda frase, que tornou Lacan famoso:
- O ato sexual não existe.
Claro. Nada existe fora da linguagem. Tudo o mais é ilusão. A "realidade" serve apenas como suporte à linguagem e quando algo acontece, qualquer coisa, é para dizer algo. E Lacan conclui:
- Isso diz algo.
Esse conceito de enantiossemia levou Lacan cedo a se interessar por superfícies, especialmente por superfícies unilaterais, como a fita de Möbius. Era uma maneira de mostrar quão diferentes podiam ser os sentidos de um elemento linguístico, dependendo de como fosse ouvido "do lado significante" ou "do lado significado". Pegue um pedaço de papel vegetal ou de papel transparente e forme com ele a palavra:
MOT
Ao transportar essa palavra, tratada como uma decalcomania, fazendo-a dar uma volta completa, você obterá sua imagem em espelho, ou seja:
TOM
que não tem nada a ver com a palavra anterior.
Onde isso se complica de forma brilhante é quando Lacan tenta (ele adquiriu esses elementos de geometria ao conviver com o matemático Guilbeau, com quem já tive contato quando ele dava palestras na Faculdade de Letras de Aix-en-Provence, sobre o tema "matemática e ciências humanas") modelar a estrutura da psique humana utilizando uma superfície unilatéra. Já disse que, ao dar a volta em uma fita de Möbius, o significante e o significado são trocados. Pelo menos, é assim que Lacan o entendia. Encontrar seu equilíbrio, ou seja, realizar uma psicanálise lacaniana, consistia em "dar a volta em si mesmo", descobrindo, ao longo de uma exploração, o que se queria significar com um significante proferido a qualquer momento ou, inversamente. Para realizar essa volta, era necessário manter uma distância respeitosa de um ponto central, chamado por Lacan o objeto pequeno a, ou falo lingu...