Definição dos estilos
Grothendieck
1º de março de 2016
Alexandre Grothendieck faleceu em 2014. Cansado de viver, prejudicado pelo fato de se tornar progressivamente cego, ele se deixou morrer. O mundo perdeu assim o mais brilhante matemático vivo.
Alexandre, quando o conheci, em Mormoiron
Nos conhecemos em 1988, na época em que ele recusou o Prêmio Crafoord. O que nos aproximou imediatamente foi nossa percepção do papel da soldadesca na pesquisa científica. Foi a mim que ele disse: "preferiria ser executado a usar um uniforme". Com o tempo, confesso sentir a mesma alergia, depois de ver pessoas como o politécnico Gilbert Payan, falecido, trabalhando para desenvolver "armas cancerígenas" (lembro-me do documento que ele me forneceu, proveniente da pesquisa militar e intitulado "evocação dos cânceres").
Lembro-me de um número do correio do CNRS, que dava voz aos militares e titulava: "pesquisadores, precisamos nos falar". Nessa ocasião, o Diretor Geral, ou talvez o responsável pelo departamento "Ciência Física para o Engenheiro" escreveu: "nos faltam contratos com o exército para satisfazer as demandas dos pesquisadores".
Toda a minha carreira, os militares estiveram no meu caminho, até que eu desisti definitivamente dos meus trabalhos de MHD. Simplesmente porque suas aplicações não poderiam, no momento presente, ser senão militares. Sim, é possível se surpreender ao ver trabalhos realizados em um canto do garagem por Jean-Christophe Doré, graças aos donativos dos leitores, nos levarem a figurar em grandes colóquios internacionais da especialidade. Tudo isso com experiências realizadas em uma simples câmara de vidro onde operava em ar sob baixa pressão. Mas essa pressão é simplesmente a que reina em altas altitudes, onde os americanos já fazem evoluir seu engenho hipersônico Aurora.
Minha esposa frequentemente tranquiliza os visitantes quando eu me envolvo em digressões como essa:
*- Quando meu marido quer falar sobre a confecção de uma omelete, ele começa lhe falando sobre a infância infeliz da galinha. Mas, tranquilize-se, no final ele voltará ao assunto inicial. *
Sim, é verdade, ao abordar o tema Grothendieck, surgem muitas memórias. E com o tempo, compartilho totalmente sua atitude de rejeição, sua fuga, que alguns poderiam perceber como manifestação de um espírito perturbado. Mas não, foi uma escolha refletida, deliberada, que se pode chamar de "gesto forte", que poucos fariam, ousariam. Pois mesmo as matemáticas mais abstratas podem conduzir a aplicações mortíferas. As aplicações à robótica, à busca de autonomia para robôs de combate, drones, equipando-os com inteligência artificial é um exemplo. Alexandre, que via mais longe do que muitos, sabia que tudo isso estava em germe. Esse recuso à entrada de financiamento do IHES pelos militares tem valor simbólico.
Retornando ao que eu dizia acima, como experiências realizadas por Jean-Christophe Doré em seu garagem em Rochefort, com ímãs permanentes e dispositivos muito simples, poderiam interessar tanto aos militares? Tudo isso parece grotesco. Mas no ar rarefeito, os plasmas se comportam de uma forma muito particular. Por que se preocupar com a física dos plasmas? Porque se quer fazer evoluir uma máquina voando a uma altitude muito alta, bem além dos 30 quilômetros atingidos pelo avião mais rápido, o SR-71, voando a 3500 km/h e abaixo dos 150 km de altitudes onde os satélites espionagem não podem mais se aventurar, por falta de serem freados pela atmosfera, é preciso voar a velocidades da ordem de 10.000 km/h.
O SR-71
Sim, quanto mais alto você evolui, mais rápido você precisa voar. A 10.000 metros, altitude padrão dos voos civis, uma velocidade de 900 km/h é necessária, indispensável. A essa altitude, a 600 km/h um avião cairia como uma pedra. A 15.000 metros, era o Concorde, evoluindo a Mach 2. E além disso, o domínio do avião espionagem mais rápido do mundo, que nenhum míssil soviético conseguiu interceptar, porque voava mais rápido que os raios que lhe eram direcionados!
Militares de vários países tentam também estabelecer-se nesse "espaço intermediário", um desafio estratégico principal. Mesmo os franceses se envolveram nisso. Mas há uma grande diferença entre a teoria e a prática. Se tentarmos usar um simples estátoreator, um "scramjet", nos deparamos com a temperatura muito alta que resulta da recompressão do ar através de uma onda de choque, nas entradas de ar do motor. Para evitar isso, é necessário recomprimir o ar de forma "suave", usando a MHD.
Quando esse ar chega a uma velocidade V, se o submetermos a um campo magnético transversal B, imediatamente se instala um campo eletromotor E = V B. O físico escreveria mais precisamente V X B porque esse campo elétrico induzido pela velocidade completa os dois vetores V e B através da clássica "regra dos três dedos". Esse campo elétrico provoca a passagem da corrente no gás.
Não importa como isso acontece. O que importa é que podemos então extrair energia (elétrica) desse fluxo de ar rarefeito, mais facilmente quanto mais baixa for a pressão, onde ele se ioniza facilmente, como o gás rarefeito que enche nossos tubos fluorescentes. Nesse caso, veremos se instalar no gás uma corrente I que, combinada com o campo B, dá uma força I x B (força de Laplace) que tende a desacelerar esse gás. Normal: convertemos a energia cinética do ar incidente em energia elétrica. É o preço a pagar por essa conversão direta.
Assim, podemos considerar desacelerar e recomprimir esse ar sem aquecê-lo muito. Enquanto em uma onda de choque a energia cinética é bruscamente convertida em energia térmica, em calor.
O que fazer com essa energia elétrica? Enviamos para a parte de trás do aparelho, onde contribui para acelerar o ar, contribuindo assim para a propulsão. Chamamos esse truque de "MHD bypass".
Notamos, por sinal, que um turbojato opera um "bypass mecânico", pois na parte de trás do motor o gás aciona uma turbina que, acoplada ao eixo, aciona o compressor que se encontra do outro lado.
Tudo isso parece bem. Mas nas condições em que operamos, existe uma instabilidade de plasma que se desenvolve em alguns milhões de segundos, a instabilidade eletrotérmica, descoberta por meu amigo Evgueni Velikhov em 1964. As instabilidades nos plasmas são uma praga. São elas que condenam o projeto ITER.
O fato é que sou um dos melhores especialistas em instabilidades em plasmas, no plano internacional. E em particular, o único especialista europeu na instabilidade de Velikhov, que fui o primeiro a dominar, em 1965. É assim. Sem dominar esse assunto, é impossível considerar um projeto hipersônico evoluindo em ar rarefeito. Lá em cima, essa instabilidade domina o jogo.
Satisfez por um tempo demandas como a de Jean-Christophe Doré, aceitei conduzir algumas experiências em ar rarefeito, que imediatamente nos abriram as portas dos colóquios internacionais (Vilnius, Lituânia, Bremen, Alemanha, Jeju, Coreia, Praga, Tchecoslováquia), e das revistas com comitê de leitura (Acta...)