Cinema Angela Luc Besson Jamel Debbouze
Obrigado, Sr. Besson
1º de janeiro de 2006
Fui ver o filme Angela, do diretor Luc Besson, duas vezes. Na segunda vez, levei uma amiga. Mas já no grande centro cinematográfico Cézanne, em Aix, o filme estava sendo exibido na sala 4. No meio das férias de Natal, sem fila, uma sala meio vazia. Não tenho a impressão de que o público tenha se envolvido como havia feito com o filme de Jean-Pierre Jeunet, O Fantástico Destino de Amélie Poulain. É verdade que aquele filme era engraçado, louco. As pessoas precisam rir.
O filme de Besson é diferente. Encontrei de novo o fôlego dos filmes em preto e branco dos anos 50, como Pastos Verdes ou Milagre em Milão. Não tenho a memória de um cinéfilo. Outros se lembrarão dos realizadores desses filmes.
Vou revelar o tema do seu filme. Tanto faz. Talvez isso desperte o desejo de ir vê-lo. Jamel Debbouze desempenha aqui um talento de ator completo. Ele não é engraçado. Ali, é comovente. Talvez seja isso que o público não entenda. Gostam de colar rótulos. Delon, que sempre foi um excelente ator, nunca conseguiu sair dos filmes policiais por causa disso. Jamel tem a etiqueta de farsante. Mas ali, é um grande ator que atravessa a tela.
No início do filme, Jamel-André é um completo perdido.

Homem de negócios ruim, um pouco ladrão, que emprestou dinheiro de todo mundo, de gente perigosa, que o ameaçam de matá-lo se ele não pagar. No fim do dia, sem encontrar solução, ele tenta se entregar à polícia "para que tudo acalme". Um policial gordo o escuta, distraído. Jamel tenta emocioná-lo:
- Estou no fundo do poço. Você não entende?
E o outro responde:
- É para câmera escondida?
Jamel se encontra no parapeito de uma ponte parisiense, decidido a acabar com a vida. Levanta os olhos para o céu e, falando com Deus, diz:
- É isso que você quer?
Mas, à sua esquerda, avista uma mulher loira imensa, de saltos altos, também voltada para a água turva do Sena. Parece ter chorado muito. André lhe pergunta:
- Ei, o que você está fazendo? Por que está aqui?
- Você não vê? Pelo mesmo motivo que você.
E ela pula.
O pequeno Jamel não pensa. Com seu braço esquerdo mal formado, sempre escondido numa manga de camisa muito grande, ele pula também, nada e salva a vida dela. E os dois ficam juntos na margem, frente a frente. A moça tem uma cabeça e meia a mais que ele. Tem um sotaque encantador, cabelos loiros mal penteados, retos, e a maquiagem está completamente borrada. Não sabemos de onde veio essa atriz, onde Besson a encontrou. Chama-se Rie Rasmussen. Um nome nórdico. Sueca? Não me lembro mais. Em Viagem ao Centro da Terra, os heróis de Júlio Verne seguiam a pista de Aarne Saknudsen. Parece muito. Lembro que fomos lá, Jean-Christophe e eu, quando ele tinha dez anos, à procura da entrada que leva ao centro da Terra. Um dia, conto isso para você. Vou digitalizar nosso diário de viagem. Guardei todos. Enquanto os outros ficavam na beira, nós descíamos até o fundo dos craters fumegantes, em busca da entrada.
Essa atriz loira é excelente em todos os aspectos. Tem uma presença fantástica. E não é fácil ter presença diante de um gênio como Jamel, que exala talento por todos os poros da pele. Mas talvez seja justamente o gênio de Besson, que é um diretor muito grande. Quando se vê suas cenas, pensa-se que são perfeitas. Acho que este filme é uma obra-prima e talvez as pessoas não percebam. A trama, os diálogos, a atuação dos dois atores: caminhei do início ao fim. Corri, até.
As pessoas precisam rir, talvez. O filme de Jeunet era engraçado, surrealista do início ao fim, é claro. Lembro-me de Rufus recebendo mais uma postal mostrando seu jardineiro de brinquedo viajando pelo mundo e repetindo:
- Não entendo...
Com Angela, Besson dá um passo além. Assume todos os riscos, inclusive o maior de todos: falar diretamente ao coração do espectador, incomodando-o de forma ousada, sem cenas de sexo, sem violência, sem carros explodindo e queimando, sem estampidos de metralhadoras, sem mortes em dezenas, que, no entanto, constituem a fórmula que funciona atualmente. Besson, capaz de comandar um exército de figurantes, cria um filme de autor, íntimo. Talvez seja aí que ele se revele? O riso nos faz esquecer por um instante a angústia de nossas vidas passageiras. O que Besson nos oferece é o acompanhamento de um milagre. Jamel-André está completamente desesperado, e o céu coloca um anjo em seu caminho. Pois essa mulher é um anjo e logo lhe revela isso. Ela está simplesmente em missão, para ajudar esse pequeno André que não se ama, que só faz besteiras na vida. Para ajudá-lo a se ver realmente como é: belo por dentro, carinhoso, comovente, caloroso.
Há vários atores neste filme, mas só vemos os dois principais, só ouvimos seu diálogo, sem pausas. Ambos estão no mesmo nível. Jamel já é famoso. Talvez o mágico seja Besson, o homem que sabe criar milagres. Ele me lembra Knoum, o oleiro.
Desvendo a história, mas é para que você vá ver o filme, para que possa saboreá-lo até o fim. O papel de Angela é levar Jamel-André a finalmente ser ele mesmo, a dizer a verdade, a ser finalmente verdadeiro, em vez de só dizer bobagens e fazer confusões que sempre voltam para cima dele.
Há uma cena-chave no filme. Angela e André estão nos banheiros de um restaurante. Ela o segura pelos ombros e o leva a se olhar no espelho. E então, lentamente, a câmera de Besson atravessa a parede e se coloca frente aos dois. Angela explica a André que ninguém jamais lhe disse que o amava. E, para mostrar como é fácil, diz:
- Eu te amo, André.
E Jamel-André responde:
- Eu te amo, Angela.
O filme é em preto e branco durante todo o tempo e tem que ser assim. A cor seria inadequada, pois este filme não é da nossa época. Parece René Clair. Parabéns, Sr. Besson, o mágico.
A partir daí, as coisas mudam. O amor à primeira vista age. Não existe apenas em romances ou filmes, embora muitas pessoas nunca o conheçam, como se tivessem um para-raios natural. O amor à primeira vista é um fenômeno irracional, que atravessa você.

O mecanismo se põe em movimento, com Besson guiando os engrenagens. O que vai acontecer não estava no roteiro. Esse pequeno Jamel é tão encantador, tão sincero que Angela acaba se apaixonando por ele. Enquanto isso, descobrimos quem são os anjos. Eles ignoram seu passado. É "segredo máximo", diz ela. São enviados em missão. É o "cronograma" que decide. Quando a missão termina, suas asas se desdobram e eles voam. Seus poderes são muito amplos. Podem fazer cinzeiros flutuarem, mandar adversários ao chão com um soco, conhecem antecipadamente os resultados de todas as corridas de cavalos, o que lhes permite pagar suas contas de hotel.
A...