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A energia nuclear no Japão, em 1996: já...
Testemunho de um técnico japonês de caldeiraria que desenvolveu câncer
26 de julho de 2011
Reproduzido desde Gazeta Nuclear
| Testemunho do Sr. Hirado NORIO, técnico de caldeiraria, escrito em 1996 (falecido de câncer em 1997) | J | Não sou ativista contra as usinas nucleares | Trabalhei por 20 anos em usinas nucleares. Sempre houve polêmicas sobre as usinas nucleares, onde as pessoas dizem que são a favor ou contra, ou que são perigosas ou não. | Mas hoje, quero simplesmente contar o que acontece nas usinas. Você vai entender que há uma grande diferença entre a realidade e a ideia que você tem dela. Ao mesmo tempo, você descobrirá que as usinas nucleares irradiam (contaminam) cada vez mais pessoas todos os dias e são a causa de discriminações. | Você certamente descobrirá coisas que nunca ouviu falar. Por favor, leia meus textos até o final e reflita por si mesmo. Quando se fala sobre usinas nucleares, muitas pessoas falam sobre o plano de construção. Mas ninguém fala sobre os trabalhos realizados. Sem conhecer o canteiro de obras, não se pode saber a realidade das usinas. | Fiz minha formação como encanador nas indústrias e grandes fábricas químicas. Fui contratado para construir (participar da construção das) usinas nucleares no final da minha vigésima década, depois trabalhei muito como supervisor de canteiro. Conheço quase tudo sobre as usinas nucleares, mais do que um simples empregado poderia saber. | Segurança, uma visão utópica | No ano passado, em 17 de janeiro de 1995, houve um grande terremoto em Kobe. E o povo japonês começou a se preocupar se os terremotos não representariam um perigo para as usinas nucleares japonesas. Elas realmente resistirão a todos os terremotos? Isso não é nada seguro. O governo e as empresas de eletricidade destacam que as usinas estão bem projetadas e construídas em solos estáveis. Mas é uma visão utópica. | No dia seguinte ao terremoto, fui a Kobe. As muitas relações entre os danos em Kobe e a questão das usinas nucleares me deixaram confuso. Até hoje, quem imaginou que as trilhas do Shinkansen e os postes da estrada expressa poderiam cair? | Em geral, imaginamos que as construções das usinas nucleares, do Shinkansen ou das estradas expressas estão sujeitas a rigorosos controles da administração. Mas em Kobe, descobrimos formas de concreto deixadas nos postes de concreto do Shinkansen. As armaduras da estrada expressa tinham sido soldadas de forma inadequada: (elas foram coladas com o metal da solda, mas as bordas das armaduras em si não foram fundidas). Todas foram desmontadas com o terremoto. | Por que essa coisa aconteceu? Porque demos muita importância ao plano, ao escritório, mas negligenciamos a supervisão no canteiro de obras. Se não foi a causa direta, podemos dizer que essa negligência provocou a magnitude da catástrofe. | Usinas nucleares construídas por pessoas sem qualificação | Assim como nas construções de Kobe, também há muitos erros humanos nas usinas nucleares. Por exemplo, conectar tubos deixando ferramentas dentro. Não há muitos operários muito competentes. Eles não conseguem seguir perfeitamente um plano de construção bem desenhado. Esse plano utópico parte da ideia de que são operários especializados que o realizam, mas nunca nos perguntamos sobre a qualidade dos operários e suas condições de trabalho. | Para as usinas nucleares como para outros canteiros de obras, a mão de obra e até os inspetores são compostos por pessoas sem qualificação suficiente. É compreensível que um grave acidente ocorra nas usinas nucleares, no Shinkansen ou nas estradas expressas. | A concepção do plano das usinas nucleares está bem feita. Há muitas medidas de proteção e de socorro. Se algo não funcionar bem, ele para corretamente. Mas isso é apenas no nível do plano. Os trabalhos de construção mal feitos fragilizam esse plano. | Por exemplo, para construir uma casa, mesmo que o plano seja desenhado por um desenhista de primeira qualidade, se for construída por carpinteiros e pedreiros que não são competentes, teremos vazamentos e paredes mal instaladas. Infelizmente, essa casa é a usina nuclear japonesa. | Antes, sempre havia um supervisor chamado "Boushin" para supervisionar os trabalhos. Ele tinha ainda mais experiência do que o supervisor de canteiro, que era mais jovem. O Boushin estava orgulhoso do seu trabalho e considerava acidentes e negligência como uma vergonha. Ele sabia, claro, da periculosidade do acidente. | Há cerca de 10 anos, não há mais operários competentes. | Nenhum experiência é exigida no momento da contratação. | Operários sem competência não sabem o perigo do acidente. Eles nem sabem quais são os trabalhos irregulares e mal feitos. Essa é a realidade das usinas nucleares japonesas. | Por exemplo | na usina de Fukushima da TEPCO | , começamos a usina deixando um pedaço de fio de ferro e escapamos por pouco de um grave acidente que poderia ter impacto no mundo inteiro. O operário sabia que havia deixado cair esse fio de ferro, mas não sabia até que ponto a consequência de sua ação era perigosa. Nesse sentido, uma usina nuclear nova construída por essas pessoas incompetentes é tão perigosa quanto uma usina antiga. | Desde que não há mais muitos operários competentes, padronizamos a construção das usinas. Isso quer dizer que eles não olham mais para o plano, mas simplesmente montam peças pré-fabricadas em fábrica, montando a peça número 1 com a peça número 2 como em um jogo de dominó. Assim, eles não sabem mais o que estão construindo e até que ponto esses trabalhos devem ser precisos. É uma das razões pelas quais o número de acidentes e falhas aumenta nas usinas nucleares. | Na usina nuclear, há também o problema da irradiação que impede a formação de sucessores. Quando se trabalha na usina nuclear, está muito escuro e quente e com a proteção é impossível falar. Então os operários se comunicam por gestos. Como eles podem, nessas condições, transmitir seus conhecimentos? Além disso, enviam primeiro as pessoas competentes para trabalhar e elas se expõem rapidamente à quantidade anual de radiação permitida e não podem mais trabalhar, o que aumenta ainda mais a incompetência dos operários. | Por exemplo, para os soldadores, eles cansam os olhos trabalhando. Após 30 anos, eles não conseguem mais fazer trabalhos precisos e não encontram emprego na indústria petroquímica. E é assim que eles chegam às usinas nucleares. | Você pode ter uma imagem errada de que as usinas nucleares são algo muito sofisticado. Mas não é uma construção tão segura quanto se imagina. | Acho que você entendeu bem por que as usinas nucle...